O Bitcoin (BTC) é visto no Brasil principalmente como um ativo alternativo para diversificar a carteira de investimentos, mas isso pode estar começando a mudar em algumas partes do País. Uma delas é Jericoacoara, famoso destino turístico no Ceará que atrai 600 mil visitantes por ano – e onde cerca de 40 estabelecimentos já aceitam a moeda digital como forma de pagamento.
De sorveterias e lojas de roupas, souvenires e mercadinhos, a vendedores de passeios, peixe e até o ambulante de caipirinha na praia: há todo tipo de negócio que já aderiu à novidade. “Quem vem para Jeri e só tem Bitcoin não passa fome, não fica sem roupa, sem beber”, conta Mateus Felix Serpa, 30, dono de seis lojas de variedades no município que fica a 300 quilômetros da capital.
Seus estabelecimentos começaram a aceitar Bitcoin pouco antes da pandemia, em 2020. Com um aplicativo no celular, o comerciante começou a realizar algumas poucas vendas no mês para entusiastas da tecnologia. Hoje, as lojas contam com máquinas de cartão especiais para Bitcoin. O faturamento proveniente da moeda digital ainda é pequeno, de cerca de R$ 1 mil mensais, mas o ticket médio vem aumentando: de R$ 20 no começo, para cerca de R$ 80 atualmente.
Foi também antes da pandemia que a gaúcha Claudine Viezzer, 40, decidiu trocar a vida estressante do Rio de Janeiro pelas areias de “Jeri”. Desde o final de 2022, ela aceita Bitcoin como pagamento em sua loja de roupas na vila.
“Resolvi aceitar porque não tinha nada a perder, seria mais uma forma de vender. Em Jeri a gente não tem banco, não tem caixa eletrônico, nada disso, então qualquer forma de pagamento vai ser sempre bem-vinda”, conta a jornalista e designer. “Eu não conhecia nada sobre Bitcoin e gostei muito de entender, de aprender”.
O Bitcoin chegou aos comerciantes locais por meio de Fernando Motolese, um entusiasta que criou o projeto “Praia Bitcoin” para popularizar a criptomoeda na localidade. A iniciativa depois ganhou impulso do youtuber Vinícius Kinczel. Juntos, eles convencem a população de Jericoacoara a começar a usar o ativo digital, considerado por eles como “um dinheiro melhor”.
Kinczel, 37, apostou tudo o que tinha em Bitcoin ainda em 2018, muito antes da criptomoeda explodir em valorização e atingir US$ 69 mil em 2021. “Eu tinha um carro, uma casa, uma participação em um terreno e uma participação em uma micro construtora. Vendi tudo que estava ao meu alcance”, contou em entrevista ao Cripto+ (assista à íntegra no vídeo acima).
“Fazemos uma mentoria [gratuita] sobre Bitcoin. É relativamente fácil: é só baixar uma carteira para o celular, guardar as 12 palavras que são sua chave privada e ser feliz”, explicou. Para estabelecimentos que têm funcionários, o projeto criou uma máquina de cartão especial feita para Bitcoin: basta encostar um cartão para fazer uma transferência sem passar pela rede bancária.
Máquina de cartão de Bitcoin desenvolvida pelo projeto Praia Bitcoin (Reprodução/Vinicius Kinczel)
O primeiro estabelecimento a receber esse tipo de maquininha na cidade foi um pequeno restaurante que processa, em média, dez vendas em Bitcoin por mês. Para Jaline Sampaio Bica, 33, uma das responsáveis pelo local, a iniciativa só traz benefícios. Segundo ela, é mais uma forma de pagamento disponível para o cliente, atrai o entusiasta da criptomoeda e ainda abre a possibilidade de valorização do dinheiro recebido.
Após amargar um 2022 de fortes perdas, o Bitcoin chegou a disparar mais de 80% em 2023. Atualmente, no entanto, o ganho no ano cai para 70% após o preço cair em reação às perspectivas mais negativas em relação aos juros no mundo. A volatilidade é comumente apontada como um ponto negativo do BTC para pagamentos.
Em artigo recente publicado na revista Cadernos de Finanças Públicas, do Tesouro Nacional, o especialista Pedro Erik Arruda Carneiro critica a adoção de Bitcoin por cidades brasileiras, como no caso da Prefeitura do Rio de Janeiro, que passou a aceitar pagamento de IPTU com a criptomoeda.
Para Carneiro, a volatilidade do ativo apresenta um desafio porque o preço pode cair entre o recebimento e a conversão para reais. “No mínimo, por conta dessas condições, o governo deve adotar um tamanho limitado na aceitação de bitcoins”, afirmou.
O volume pequeno parece ser, até aqui, o motivo pelo qual a população de Jeri não sente o sobe e desce do ativo digital. Em geral, as quantias recebidas em Bitcoin são baixas, então as mudanças de preço constantes não costumam afetar muito o caixa dos negócios.
Os comerciantes também nem sempre vendem os bitcoins recebidos. Há relatos de quem prefira guardar as criptos à espera de valorização.
Além disso, pelo aumento na quantidade de estabelecimentos que já aceitam a criptomoeda, também é possível usá-las no dia a dia: um pescador que recebeu Bitcoin compra comida no mercadinho, que compra insumo na loja de variedades, que distribui a moeda para os funcionários que, por sua vez, gastam no ambulante da praia. É um embrião de economia circular baseada em Bitcoin.
Apesar das operações serem de pequena monta, os participantes veem o projeto como capaz de atrair ainda mais turistas para a região. Em fevereiro, o projeto Praia Bitcoin levou vários entusiastas da moeda digital para conferir o experimento de perto. Para alguns, foi uma amostra do que pode acontecer se a comunidade do Bitcoin abraçar Jericoacoara como uma “cidade cripto”.
“Aqui as pessoas abraçam muito as novidades, acho que é um terreno muito fértil”, destaca a jornalista e designer Claudine Viezzer. “Com o tempo, Jeri pode ser um destino procurado por pessoas que querem tirar férias em Bitcoin. Não deve ter muitos lugares no mundo que propiciam isso”.
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