A tão esperada ata do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, foi divulgada nesta terça-feira (9). No documento, o Comitê discutiu os impactos do cenário fiscal sobre a inflação e avaliou que a apresentação do arcabouço fiscal reduziu a incerteza associada a cenários extremos de crescimento da dívida pública, apontando que seguirá acompanhando a tramitação e a implementação do arcabouço fiscal apresentado pelo governo e em apreciação no Congresso.

Outro ponto que chama a atenção do mercado é a indicação de Gabriel Galípolo para diretoria do Banco Central. Ele é apontado por colegas como um negociador habilidoso com contatos no setor empresarial e financeiro e que gosta de trabalhar em equipe. Na avaliação do economista-chefe da análise econômica, André Galhardo, a nomeação de Galípolo para o BC é uma tentativa de aproximação entre o governo e a autarquia.

No Tesouro Direto, os juros dos títulos públicos apresentavam comportamento misto às 9h28, primeira atualização do dia. O Tesouro Prefixado 2026 oferecia retorno de 11,52%, maior do que os 11,50% desta segunda-feira (8). O Tesouro Prefixado 2033 entregava juro de 12,21%, inferior aos 12,23% da sessão anterior.

Entre os títulos atrelados à inflação, a taxa do Tesouro IPCA+ 2045 era de 6,04% ao ano, maior do que os 6% da véspera. O Tesouro IPCA+ 2029 oferecia retorno de 5,55% ao ano, igual valor ao da sessão anterior.

As negociações do Tesouro Prefixado 2055 estão suspensas devido ao pagamento do cupom semestral, que ocorre na próxima segunda-feira (15). Por regra do Tesouro Direto, o investimento em títulos que têm cupom de juros é suspenso quatro dias úteis antes da data do pagamento. Da mesma forma, há mudanças nos resgates, que são interrompidos dois dias úteis antes do pagamento do cupom.

Os títulos do Tesouro RendA+, criados neste ano para os investidores que priorizam a aposentadoria, registravam alta nas taxas. O Tesouro RendA+ 2030 oferecia ganho de 5,94% ao ano, superior aos 5,92% da sexta.

Confira os preços e as taxas dos títulos públicos disponíveis para compra no Tesouro Direto na manhã desta terça-feira (9):

Fonte: Tesouro Direto

 

Ata do Copom

A Ata da Reunião do Copom realizada entre os dias 2 e 3 de maio, que decidiu mais uma vez pela manutenção da taxa básica de juros (Selic) em 13,75% ao ano, reforça o entendimento pela autoridade monetária de que de que não há relação mecânica entre a política do BC e o novo arcabouço fiscal, apresentado pelo governo.

Segundo o documento, isso é ilustrado pelo fato de que, entre as duas últimas reuniões do Copom, a probabilidade de os cenários mais extremos de trajetória da dívida pública se reduziu, mas não houve mudança relevante nas projeções de inflação, uma vez que as expectativas não se alteraram de forma significativa.

Apesar de ainda ter mantido em seu balanço de riscos a incerteza sobre o desenho final do acabouço que será aprovado pelo Congresso Nacional, o Copom avalia que a apresentação de uma proposta de novas regras fiscais reduziu parte das dúvidas advindas da política fiscal.

“A materialização de um cenário com um arcabouço fiscal sólido e crível pode levar a um processo desinflacionário mais benigno através de seu efeito no canal de expectativas, ao reduzir as expectativas de inflação, a incerteza na economia, o prêmio de risco associado aos ativos domésticos e, consequentemente, as projeções do Comitê.”

Os principais mercados do mundo operam com baixa nesta terça-feira (9), com investidores aguardando pelo índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) nos EUA, previsto para quarta-feira (10), enquanto digerem dados da balança comercial da China.

As importações da China caíram 7,9%, abaixo do esperado, o que levanta questões sobre a força da recuperação econômica da segunda maior economia do planeta.

Na véspera, a secretária do Tesouro, Janet Yellen, disse que não aumentar o teto da dívida seria uma “catástrofe econômica ” e que os reguladores não estão próximos de nenhuma política que limite a venda a descoberto de ações de bancos regionais.

Enquanto isso, o governador do Fed, Philip Jefferson, e o presidente do Fed de Nova York, John Williams, devem falar em eventos ao longo do dia.

“Os documentos trouxeram alguns indícios que, a nosso ver, reforçam sua recente postura hawkish (aumento de juros), diz a XP. O comitê reforçou que “as expectativas de inflação seguem desancoradas das metas” e que “está acompanhando com preocupação esse movimento”. O Copom afirma que “os dados inflacionários mais recentes sustentam a visão de um processo de desinflação mais lento”. Sobre a política fiscal, o comitê afirmou que “a apresentação de uma proposta de enquadramento fiscal reduziu em parte a incerteza decorrente da política fiscal”.

Mas repetiu três vezes que “não há relação mecânica entre a convergência da inflação e a aprovação do quadro fiscal”. Para a XP, é uma mensagem “clara” de que o Copom não cogita cortar os juros na próxima reunião, mesmo que o Congresso aprove o arcabouço fiscal nesse ínterim.

Regra fiscal

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), afirmou no domingo (7), em entrevista à CNN Brasil, que a proposta de novo regime fiscal (PLP 93/23) deverá ser alterada pelos deputados. Segundo ele, o relator, deputado Claudio Cajado (PP-BA), apresentará o parecer preliminar nesta semana.

“A proposta do governo veio com uma espinha dorsal equilibrada, mas cabe ao Congresso dar a palavra final”, avaliou Arthur Lira. “Não posso adiantar o texto do relator, mas acredito que na Câmara haverá mudanças para tornar a proposta mais rígida, e não tenho dúvidas de que o Senado dará a sua colaboração”, disse.

A nova regra fiscal substituirá o teto de gastos, criado no governo Temer a fim de limitar o crescimento das despesas à inflação. A sugestão do governo Lula busca uma sustentabilidade fiscal ajustada aos ciclos econômicos e políticos. O texto é criticado por supostamente reduzir controles e punições sobre a administração.

“Não defendo a responsabilização pessoal do agente público, mas o governo tem de ter restrições quando não cumprir as metas fiscais”, continuou o presidente da Câmara. “O Brasil precisa de diretrizes para investimentos e gastos públicos, mas sem esquecer do social, e isso deverá ser feito com responsabilidade”, disse.

Na entrevista, Arthur Lira falou ainda de recentes embates entre parlamentares da base governista e da oposição. “Estaremos juntos naquilo que decidirmos que é melhor para o Brasil, mas retrocessos não serão admitidos – e não é por mim, é por uma maioria eleita pelo povo e que pensa assim no Congresso”, afirmou.

Para o presidente da Câmara, o Poder Executivo deveria entender que a relação com o Legislativo hoje, pelo maior protagonismo do Congresso, não é a mesma de 20 anos atrás, quando Lula iniciava o primeiro mandato presidencial. “Se não houver mudança de mentalidade, os choques acontecerão”, avaliou Arthur Lira.

Galípolo

Com as duas primeiras indicações ao Banco Central, em especial a de Gabriel Galípolo para o posto-chave na diretoria de Política Monetária da autarquia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva traça o caminho para introduzir contrapontos em um colegiado que hoje opera com poucas divergências, na tentativa de levar a autoridade monetária a baixar os juros no país.

Se aprovado pelo Senado, Galípolo assumirá um cargo responsável por cuidar dos instrumentos de juros e câmbio, além de orientar tecnicamente a administração das reservas internacionais do país, no que pode ser apenas o começo de seus passos na instituição.

De acordo com uma fonte que acompanhou a escolha dos nomes, Galípolo é cotado para ser indicado à presidência do BC após o término do mandato de Roberto Campos Neto, em dezembro de 2024.

Fed

A persistência de pressões inflacionárias que levem a uma política monetária ainda mais restritiva segue como o principal risco à estabilidade financeira, mostrou pesquisa conduzida pelo Federal Reserve (Fed) de Nova York com 25 integrantes do mercado, incluindo profissionais de fundos de investimento e corretoras.

Vários participantes do levantamento ressaltaram que o mercado de trabalho e a atividade econômica permanecem “robustos”, o que sugere que bancos centrais terão que apertar mais os juros, sob o risco de causar uma desaceleração mais acentuada e instabilidades nos mercados financeiros.

Alguns deles pontuaram também que a redução do balanço de ativos poderia prejudicar o funcionamento dos mercados, particularmente dos títulos de dívida pública.

Ainda de acordo com a sondagem, agentes do mercado advertiram para possíveis estresses financeiros se o teto da dívida não for elevado a tempo. Um eventual default ampliaria os custos de crédito em um ambiente de política monetária já apertada, destaca a pesquisa.

Outro risco citado foi a turbulência no setor financeiro após a quebra de bancos regionais. “Muitos participantes observaram maior escrutínio do mercado sobre a estabilidade dos depósitos e quedas no valor justo de ativos legados de taxa fixa de longa duração, o que poderia desencadear mais contágio e volatilidade do mercado”, afirma.

BCE

O Banco Central Europeu poderá ter de aumentar as taxas de juros durante mais tempo do que o atualmente previsto, e setembro poderá ser o primeiro momento em que os decisores de política monetária poderão avaliar se as anteriores subidas de taxas foram eficazes, afirmou esta terça-feira o decisor de política monetária do BCE, Peter Kazimir.

O BCE aumentou as taxas de juro em cada uma das suas últimas sete reuniões para combater uma subida histórica dos preços ao consumidor e os altos responsáveis de política monetária assinalaram novas subidas à medida que as pressões inflacionistas continuam a aumentar. Mas o banco abrandou o ritmo das subidas para 25 pontos base, na semana passada, o menor aumento desde o início do aperto em julho do ano passado, argumentando que as medidas anteriores ainda estão a ser aplicadas na economia e que a inflação global já ultrapassou o seu pico. (Reuters)

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